A Dona da Noite - Capítulo 4
Capítulo 4
A Primeira Noite Completa de Caçada
O mundo tinha mudado. A floresta não era mais um amontoado de troncos e galhos indistintos. Cada árvore exalava um odor próprio: resina adocicada, musgo úmido, folhas com cheiro ácido de seiva cortada. O vento trazia consigo o perfume do sangue de animais escondidos sob a terra, e até o zumbido de um inseto parecia um trovão dentro de minha mente.
Eu ergui a cabeça. O céu, que antes me parecia negro e infinito, agora era uma tapeçaria pulsante: enxergava estrelas ocultas aos olhos humanos, e cada uma parecia vibrar como um tambor distante.
O estranho, meu mentor, me observava com o mesmo sorriso enigmático.
— Vá. Cace.
Obedeci, movida por uma fome que era ao mesmo tempo dor e êxtase.
Avancei pela mata com velocidade sobrenatural. Meus pés mal tocavam o solo. A cada salto, as folhas se agitavam em redemoinhos, e os meus olhos captavam até a gota de orvalho sendo esmagada.
Não demorou para eu ouvir vozes. Dois homens, acampados junto a uma fogueira, riam alto, bebendo vinho barato. Eram soldados, talvez caçadores, o fedor de couro e pólvora impregnava suas roupas.
Eu me aproximei em silêncio. Podia ouvir o coração de cada um batendo em ritmos distintos, como instrumentos em uma sinfonia grotesca.
O primeiro gole veio rápido. Eu me lancei sobre um deles com a velocidade de um raio, derrubando-o ao chão. Meus dentes cravaram-se em sua garganta, e o sangue jorrou quente, salgado, metálico. Eu bebi como se afogasse a dor do mundo. Cada gole era uma onda de prazer, preenchendo os meus ossos, inflando os meus músculos.
O segundo soldado tentou puxar a espada. Eu virei com um movimento fluido, desviando-me do golpe. Segurei-lhe o braço, e com uma torção seca, quebrou o osso. O grito dele ecoou pela floresta, mas foi rapidamente silenciado quando eu abri-lhe o pescoço com a adaga de prata.
O sangue espirrou em arco, tingindo as folhas. Deixei-me banhar pelo líquido quente, respirando fundo o perfume ferroso, até que o corpo do homem caiu, vazio, como um odre esvaziado.
Recuei ofegante, lambendo os lábios manchados.
O mentor surgiu, caminhando lentamente entre as árvores.
— Lembre-se — disse ele —, cada corpo deve ser encerrado. Nenhum vestígio.
Obedeci. Degolei os cadáveres, espalhei os pedaços em meio às folhagens. O cheiro era insuportavelmente doce, e ainda assim, embriagador.
A noite seguiu em caçadas frenéticas. sentia-me invencível: podia ouvir passos a quilômetros, sentir o sangue pulsando nas veias de um cervo escondido, distinguir o medo antes mesmo que a vítima gritasse.
Eu lutava com espada e adaga, girando em movimentos perfeitos, como se cada arma fosse extensão do meu corpo. E a cada morte, repetia o ritual do mentor: sugar até saciar, depois degolar, esconder o segredo.
Mas então veio o momento da aurora.
Eu já havia notado: um calor estranho começava a crescer no horizonte. A lua empalidecia, e as estrelas perdiam o brilho. O instinto gritou em meu corpo. O perigo se aproximava.
— O sol. — A voz do mentor soou grave. — Ou se tornará cinzas, ou aprenderá agora.
Meu coração, ou o que restava dele acelerou. Uma ansiedade febril se espalhou pelos músculos. O primeiro feixe de luz rompeu entre as copas das árvores, dourando o ar. A minha pele começou a arder, como se fosse papel prestes a pegar fogo.
— Concentre-se! — gritou o mentor. — Dissolva-se!
Gritei. Senti os ossos estremecerem, a carne se liquefazer. O corpo parecia implodir em fragmentos de sombra. Os dedos se alongaram, os cabelos dissolveram-se em névoa escura, e num segundo, Eu já não era Emma.
Era um vulto. Uma sombra negra que se arrastava veloz, quase invisível, pelo chão da floresta.
Os raios do sol atravessavam-me sem me ferir. Eu me movia rápido, como fumaça sugada pelo vento. A sensação era indescritível: não havia peso, não havia carne, apenas um frio profundo e uma fome latente, como se o vazio fosse minha nova pele.
O mentor, em sua forma sólida, recuava para uma gruta escura. Eu, sombra, deslizei-me pelas pedras até o interior da caverna.
Assim que a noite caiu novamente, retornei a forma humana.
A carne reconstruiu-se, meus ossos voltaram ao lugar, e os cabelos dourados, cacheados, caíram sobre meus ombros ensanguentados.
Abri os olhos, arfando.
O mentor inclinou-se, os lábios quase tocando-me a orelha.
— Agora você é completa. Sombra ao dia. Caçadora à noite. Justiça e maldição em um só corpo.
Ergui a adaga ainda pingando sangue. O reflexo da lâmina tremia com a chama da tocha.
E compreendi:não havia retorno.
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