A Dona da Noite - Capítulo 10
Capítulo 10
A Luz nas Fendas da Alma
O vento noturno trazia o perfume de jasmim e chuva antiga.
A cidade parecia suspensa entre o sonho e o esquecimento. As luzes dos postes desenhavam círculos amarelos sobre o calçamento molhado, e, a cada passo, Elias Montgomery sentia o coração pulsar como um tambor distante — não de medo, mas de pressentimento.
Emma o esperava à beira do rio Sena, vestida de cinza.
Seus cabelos dourados estavam soltos, refletindo o luar como fios de prata viva.
Ela parecia mais pálida, mais frágil, quase humana.
E, ainda assim, emanava uma força invisível, uma aura que fazia o ar vibrar à sua volta.
— Voltei, — disse Elias, aproximando-se devagar.
— Eu sabia que voltaria, — respondeu ela, sem olhar para ele. Sua voz parecia o eco de uma canção antiga. — Os homens de fé são previsíveis. Quando acreditam ter uma missão, não descansam até cumpri-la.
Elias sorriu com suavidade.
— Talvez não seja missão. Talvez seja compaixão.
Emma virou-se.
Seus olhos, outrora duros e frios, tinham agora uma sombra de dúvida.
— Compaixão... — murmurou. — Sabe o que é sentir compaixão por séculos, Elias? É como carregar uma ferida que não cicatriza. Eu já chorei por minhas vítimas. Já chorei pelos filhos que ficaram sem mães, pelos soldados que não voltaram das batalhas... mas, depois de algum tempo, o pranto seca, e o coração vira pedra.
O pastor se aproximou um pouco mais.
— E, no entanto, está aqui. Falando comigo. Isso significa que ainda resta algo em você — algo que Lucien não conseguiu matar.
Ela riu de leve, mas havia tristeza no riso.
— Lucien não mata, Elias. Ele oferece. Ele dá exatamente o que o coração mais deseja. Eu queria justiça... e ele me deu vingança. Quis poder... e ele me deu força. Quis amor... e ele me deu a eternidade. Só depois descobri que a eternidade é a pior das solidões.
Elias observava o rosto dela — a beleza perfeita e trágica, como uma estátua viva.
O vento levantava pequenos redemoinhos de folhas sobre o chão úmido, e o som da água contra as margens parecia o sussurro de fantasmas.
— Emma, — disse ele, suavemente. — Você acredita em alma?
Ela hesitou.
— Acredito em lembranças. São elas que me perseguem. Se existe alma, deve ser feita disso — daquilo que não conseguimos esquecer.
— E o que você não consegue esquecer? — perguntou o pastor.
O olhar dela se perdeu na superfície do rio.
Por um instante, pareceu ouvir vozes — risos infantis, o tilintar de talheres, o cheiro de pão quente.
— Minha mãe assava pão às quintas-feiras, — disse em voz baixa. — Ela usava um avental vermelho e cantarolava enquanto misturava a farinha. Meu pai lia os jornais e reclamava dos nobres. Eu tinha apenas dezessete anos quando vi meus pais serem mortos. E algo também morreu dentro de mim.
O vento parou. Até o rio pareceu silenciar.
Elias fechou os olhos, sentindo a dor dela como se fosse sua.
— E foi nesse dia que decidiu aceitar Lucien.
— Não naquele dia, — respondeu ela. — Mas naquela noite. Quando ele apareceu, a lua estava cheia, e eu já não sentia medo. Senti apenas o ódio... e a promessa dele soou como redenção.
Ela ergueu o rosto. O luar realçava os traços finos, a boca delicada, e os olhos agora cheios de uma melancolia profunda.
— Você sabe como é sentir o sangue de alguém entrar em suas veias, Elias? O calor, o sabor metálico, o tremor que sobe da garganta até o coração? É como tocar a alma alheia... e destruí-la. A cada vítima, eu sentia a força voltar, mas também algo dentro de mim se desfazia. Aos poucos, o que restou foi o vazio. Um frio que nem o sangue mais quente conseguiu aquecer.
Elias não respondeu de imediato.
Apenas respirou fundo e disse:
— A dor é a lembrança de que ainda há vida. E o arrependimento é o eco da alma tentando voltar a falar.
Emma o olhou, com um brilho nos olhos que parecia raiva e ternura ao mesmo tempo.
— Você fala como se me entendesse.
— Eu tento, — respondeu ele. — Mas, para entender, preciso ouvir. E para ouvir, preciso que confie em mim.
Ela desviou o olhar, e um leve tremor percorreu seus dedos.
— Confiar é perigoso para alguém como eu. Já confiei antes, e veja o que aconteceu.
Elias deu um passo adiante, tão próximo que podia sentir o frio que emanava dela.
— Eu não sou Lucien.
Os olhos dela o fitaram, e pela primeira vez desde que se conheceram, ela pareceu acreditar.
Um longo silêncio se estendeu entre os dois.
As horas passavam devagar, e o céu já ameaçava clarear ao longe, tingido de azul.
Emma sentiu algo — uma agitação antiga dentro de si, uma sensação de vulnerabilidade. O amanhecer se aproximava, e com ele, o perigo.
— Preciso ir, — disse ela, recuando. — O sol está surgindo. E mesmo na forma de uma sombra, preciso me proteger em lugares mais frescos e escuros para manter a minha energia vital e descansar.
Elias estendeu a mão.
— Antes de ir, responda apenas uma coisa.
— O quê?
— Você quer ser livre, Emma? Livre de verdade — não apenas do sol, mas de si mesma.
Ela parou. O vento soprou, levantando mechas douradas sobre o rosto pálido.
Por um instante, Emma Valcourt pareceu outra — não uma vampira, mas uma mulher cansada de lutar contra o próprio vazio.
— Eu não sei mais o que é liberdade, — sussurrou. — Mas, se o seu Deus puder me mostrar... talvez eu queira aprender.
Elias sorriu, sereno, com lágrimas nos olhos.
— Ele pode. E Ele quer.
Antes que pudesse dizer mais, Emma começou a se desvanecer.
Seu corpo dissolveu-se em sombra, flutuando para dentro da bruma do amanhecer.
Por um breve instante, a forma escura pairou sobre o rio, e Elias ouviu um último murmúrio, tão suave quanto o som de asas:
“Até a noite seguinte, Elias.”
Quando o sol finalmente rompeu o horizonte, o pastor permaneceu ali, sozinho, observando a luz refletida na água.
E, pela primeira vez, sentiu que a sombra que o seguia não era de medo, mas de esperança.
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